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  • Pedro Rabello

Música relaxa?

Serei bem sincero e um tanto prático: a pergunta que dá título a este texto tem uma resposta um tanto óbvia: é CLARO que música relaxa! Mas calma! Esse é UM jeito de responder a essa dúvida, baseado, muitas vezes, na nossa experiência pessoal com o fenômeno musical.

Há muitas pesquisas científicas ainda tentando entender os detalhes mais precisos do modo como a música atua no cérebro. Infelizmente, tenho que ser muito sincero de novo: aquela história de que a “frequência tal” cura ou faz dormir ainda é mais marketing que fato científico. Mas para algumas coisas já podemos dizer que há algum consenso. Um exemplo é o fato de que a música ativa todas as partes já conhecidas do nosso cérebro e que, com isso, impacta emoções e sentimentos, estimulando tanto mecanismos cerebrais quanto corporais. (*)

Para entender um pouco a nossa relação com a música, temos que começar pela nossa relação com o som. Alguns dos sons que julgamos amedrontadores ou extremamente relaxantes têm a ver com a nossa evolução, tanto como espécie, quanto como indivíduos. Enquanto espécie, evoluímos entendendo que sons como o rugido grave de um tigre ou o som de um trovão, por exemplo, indicam que devemos ficar alertas, prontos para correr, lutar ou procurar abrigo.

Por outro lado, a partir de um certo ponto da gestação, um bebê já é capaz de captar não só o fenômeno físico do som, mas algumas de suas nuances. A relação mais intensa com o som e, certamente, uma das primeiras e mais relaxantes, é aquela que temos com os sons do corpo da própria mãe, além das vozes dos nossos pais. Ainda que não façamos ideia do que dizem, já somos capazes, em alguma medida, de captar a musicalidade e o caráter daquilo que é dito. Prova de que nossa estreita ligação com sons e música começa muito cedo é o fato de que ainda na primeira infância a criança já tem uma bagagem sonora e musical bastante rica, isso sem contar o vocabulário expressivo de mais de duas mil palavras que uma criança de cinco anos tem em média!

Estou te contando tudo isso pra dizer que a pergunta lá de cima pode ter tantas respostas quanto pessoas no mundo! É verdade que a música tem a capacidade de alterar nossos batimentos cardíacos, nossa respiração e nossa percepção do mundo ao redor, entre outras coisas. Mas também é verdade que diferentes pessoas reagem de modos distintos aos tipos mais diversos de música. Há quem relaxe com faixas no estilo Drum ́n ́ bass, há quem prefira Mozart ou canais de relaxamento do Youtube. Essas preferências estão muito relacionadas ao desenvolvimento individual, mas também ao contexto histórico e cultural de um indivíduo. Pense, por exemplo, em boas experiências musicais que você teve com seus pais ou amigos. Pode ser que você associe essas experiências a um certo conceito música relaxante.

Partindo para um universo mais prático e mais específico, quero te contar um pouco sobre a minha experiência com músicas relaxantes. Em 2019, criei um canal no Youtube, o ‘Dare to Relax’, cujo objetivo principal é proporcionar às pessoas músicas que ajudem a relaxar. Comecei olhando para os canais que já faziam esse tipo de música e, de certa forma, reproduzi a fórmula: sintetizadores (pads) com sons contínuos que criam atmosferas quase atemporais. Essa é a minha percepção de boa parte das músicas relaxantes que encontramos no Youtube. E, acredite, é uma percepção positiva. Uma das coisas que mais me atrai nesse tipo específico do que se convencionou como música relaxante nessa plataforma é justamente essa percepção de que o tempo passa de um outro jeito. Talvez passe mesmo. O que acontece é que ali se combinam sons de longuíssima duração, normalmente com timbres um tanto suaves, alguns que parecem até estar cheios de ar em cada nota, além da ausência de ataques bruscos ou muito marcantes. Tudo isso é muito diferente daquele hard rock do Deep purple, das valsas do Strauss ou da Bossa do Jobim. Diferente porque nesses três exemplos sentimos o tempo ser marcado de forma agrupada e muito clara, o que só reforça a percepção temporal linear que tendemos a ter. Além dessa atmosfera aí de cima, quando componho para o ‘Dare to Relax’ gosto também de explorar a sonoridade do piano. Primeiro porque com ele consigo explorar uma outra gama de sons, que inclui também sons suaves, mas que me permite brincar mais com diversas durações. Posso, por exemplo, combinar várias notas muito curtas e muito delicadas na região aguda do piano ou posso optar por blocos de notas um tanto longas, igualmente tranquilas, na parte grave ou no meio do instrumento.

Uma segunda razão para gostar tanto do piano ao criar músicas para o canal é que ele fala muito à memória afetiva de muitas pessoas e isso com certeza é um fator que facilita a abertura à experiência musical que proponho. Arrisco dizer até que o piano tem algo de arquetípico na nossa memória coletiva, quase como aquele rugido do tigre, mas com a capacidade de nos deixar infinitamente mais calmos.

Pra finalizar, quero deixar uma mensagem muito simples, mas que para mim é a essência do meu propósito de vida: música relaxa sim, com diferentes estilos ou instrumentos, sendo ela uma memória ou experiência de um momento. Mas mais do que isso, a música é uma linguagem indescritivelmente rica, com a capacidade de transformar radicalmente o modo como vivemos individualmente e coletivamente. Por isso, ouça bastante música, permita-se mergulhar nesse idioma universal e ampliar seus horizontes de expressão e percepção desse mundo tão essencialmente sonoro!

* (BBC, ‘The why fator’ – podcast, ep. ‘Why does music affect the way we feel?’ - https://www.bbc.co.uk/sounds/play/w3csyv0k)

Pedro Rabello

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